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Eles Vão Te Matar: O Caos Estilizado de Kirill Sokolov Desafia as Convenções do Gênero

Alexandre Cunha

Em um cenário cinematográfico muitas vezes dominado pela mesmice, a chegada de “Eles Vão Te Matar” (2026) aos cinemas brasileiros, distribuído pela Warner Bros., configura-se como uma bem-vinda e inesperada lufada de ar fresco. O primeiro longa-metragem em língua inglesa do diretor russo Kirill Sokolov não busca a discrição; ao longo de seus 94 minutos, o filme mergulha o público em um universo de vingança com uma assinatura estética marcante, transformando a tela em um palco para um caos controlado e divertidamente sanguinolento. É uma obra que não apenas narra uma história, mas também celebra a visão singular de seu realizador.

A Estética Audaciosa de um Visionário

Kirill Sokolov já havia capturado a atenção da cinefilia global com “Morra!” (2018), um filme que reverberou em festivais como o Internacional de Quebec e o renomado Sitges, dedicado ao cinema de gênero. Sua imaginação fértil, perceptível desde curtas como “The Outcome” (2014) e “The Flame” (2015), manifesta-se em uma lente voltada para o grotesco e a feiura – tanto física quanto moral – de seus personagens. Enquanto suas obras exalam traços tragicômicos que remetem ao universo de Roy Andersson, Sokolov se distingue do “slow cinema” sueco ao optar pelo frenesi narrativo, uma característica amplamente presente em seu trabalho anterior, “Quem Vai Ficar com Masha?” (2021), onde laços familiares problemáticos se unem contra uma avó narcisista. Em “Eles Vão Te Matar”, essa inventividade se consolida, oferendo uma composição cinematográfica estilizada que é um convite a um parque de diversões macabro.

Enredo: Uma Descida ao Abismo da Vingança

A trama de “Eles Vão Te Matar” ancora-se em conflitos familiares, um pano de fundo recorrente na obra de Sokolov. Asia Reeves (interpretada por Zazie Beetz) tenta reconstruir sua vida após cumprir pena por atirar em seu pai abusivo. Em busca de reinserção social, ela aceita um emprego como empregada doméstica na mansão Virgil, um edifício sinistro localizado em Manhattan. O local, sob a administração de Lily (Patricia Arquette), revela-se rapidamente como a sede de uma seita satânica. Seus membros imortais, compostos por homens e mulheres da alta sociedade branca, contratam jovens, especialmente mulheres de minorias sociais, para serem sacrificadas ao demônio. A situação de Asia se agrava dramaticamente quando ela descobre que sua irmã mais nova, Maria (Myha’la), de quem esteve separada por uma década, está sob o domínio dos satanistas no mesmo lugar, preparando o terreno para uma brutal jornada de vingança.

Entre a Ultraviolência Coreografada e o Debate Social

Com um equilíbrio notável entre o eruptivo e o engraçado, o filme abraça o exagero como um exercício estético fundamental. Embora a comparação com Quentin Tarantino seja inevitável, Sokolov demonstra uma inventividade própria, especialmente na vertente humorística que sustenta a explosão de violência explícita. O gore é habilmente amenizado pelo senso cômico, manifestando-se de formas diversas e criativas, com decapitações e artérias dilaceradas que certamente agradarão aos entusiastas do horror extremo. O roteiro, dividido em capítulos e pontuado por flashbacks expositivos, mantém um ritmo fluido e ágil, sem comprometer a progressão da narrativa. Contudo, apesar do autoconhecimento paródico, “Eles Vão Te Matar” toca em temáticas sensíveis como racismo e violência contra a mulher de maneira superficial. Essa abordagem leviana gera o risco de esvaziar a profundidade das problemáticas, mesmo com o evidente teor caricatural do filme. Ao centralizar o conteúdo racial, a produção se apropria do tema de forma, no mínimo, discutível, e a reiterada convenção de sexualizar o corpo da mulher protagonista, logo no início, traz à tona um debate sobre a ótica do diretor, um homem branco e europeu.

Em suma, “Eles Vão Te Matar” é um filme que deve grande parte de sua energia à performance de Zazie Beetz, que entrega uma protagonista cativante e forte. A obra de Kirill Sokolov é uma experiência cinematográfica que diverte intensamente com sua audácia visual e narrativa, ao mesmo tempo em que provoca discussões pertinentes sobre a representação de temas sociais complexos. Longe de ser uma produção comum, o filme se destaca como uma comédia ultraviolenta que promete não deixar ninguém indiferente.

Fonte: https://revistaogrito.com

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