Em um testemunho vibrante de fé e devoção, a Via Sacra do Morro da Capelinha, em Planaltina, Distrito Federal, consolidou-se como um dos mais grandiosos espetáculos religiosos do Brasil. A celebração, que neste ano alcançou sua 53ª edição anual, atrai centenas de milhares de fiéis e turistas, transformando a paisagem local em um palco ao ar livre para a representação da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. A sua relevância transcende a dimensão espiritual, firmando-se como um pilar cultural e comunitário de inegável impacto.
A Magnitude de uma Devoção Coletiva
O evento anual destaca-se não apenas pela sua longevidade, mas pela impressionante escala de sua produção e pelo profundo engajamento que gera. A cada ano, a encenação movimenta a região de Planaltina, reunindo um público massivo; na edição anterior, foram mais de 100 mil pessoas presentes. Por trás da grandiosidade do espetáculo, atua um exército de 1,4 mil voluntários, dedicando-se incansavelmente em diversas funções, desde o elenco de atores e figurantes até a complexa equipe de produção, todos unidos por um propósito comum de evangelização através da arte.
A programação da Via Sacra se estende por dois dias, iniciando na quinta-feira que antecede a Sexta-feira Santa. Este dia é dedicado à encenação da Santa Ceia, que ocorre após a Missa das 20h. O ponto culminante, a Via Sacra propriamente dita, é realizada na sexta-feira, iniciando às 16h, logo após a solene Celebração da Cruz, marcada para as 15h, atraindo peregrinos de todo o país para vivenciarem este momento de introspecção e fé.
As Raízes de uma Inspiração Divina
A origem da Via Sacra do Morro da Capelinha é permeada por uma narrativa de inspiração e visão. Conforme relatado por Preto Rezende, diretor geral do grupo, o evento foi concebido pelo Padre Aleixo Susin. O pároco, que tinha o Morro da Capelinha como local de oração e contemplação, compartilhou ter tido um sonho vívido. Nele, jovens encenavam a Paixão de Cristo naquele mesmo morro, uma visão que o impulsionou a transformar o sonho em realidade. Foi assim que a ideia ganhou corpo, sendo levada para a paróquia e envolvendo grupos da comunidade para dar vida à primeira encenação.
O Coração da Tradição: A Força Comunitária
Mais do que um evento religioso, a Via Sacra é uma celebração da união e da dedicação comunitária. Preto Rezende ressalta que o sucesso e a perenidade da tradição são um reflexo direto do empenho dos moradores de Planaltina. “O que levou essa celebração a se tornar tão tradicional foi a força dessa comunidade de Planaltina. Dessas pessoas, desses 1,4 mil membros, todos voluntários, fazendo esse trabalho de evangelização através da arte”, afirma Rezende, sublinhando que o evento é uma manifestação autêntica da fé e da solidariedade local.
Cultura e Fé: Rumo ao Reconhecimento Nacional
A relevância da Via Sacra do Morro da Capelinha transcende as fronteiras do Distrito Federal, ganhando reconhecimento em nível nacional. No início de março, um Projeto de Lei que busca reconhecer a Via Sacra como uma manifestação da cultura nacional foi aprovado pela Comissão de Educação e Cultura do Senado. Essa iniciativa legislativa, que agora aguarda apreciação pela Câmara dos Deputados, é um passo fundamental para oficializar o status do evento como patrimônio cultural brasileiro, garantindo sua proteção e perpetuação para as futuras gerações e reforçando seu papel como um símbolo da fé e da arte popular do país.
A Via Sacra do Morro da Capelinha, portanto, não é apenas uma encenação da Paixão de Cristo; é um legado vivo de mais de meio século, que demonstra a capacidade de uma comunidade em transformar a fé em arte e a arte em um poderoso elo social e cultural, atraindo olhares e corações de todo o Brasil.
