O cineasta Jeferson De, figura conhecida por sua notável contribuição ao audiovisual brasileiro na representação da negritude, retorna às telonas com “Narciso” (2026), um drama que propõe uma releitura do clássico mito grego. Longe da vaidade tradicionalmente associada ao personagem, o filme mergulha nas complexas camadas da identidade racial e dos conflitos sociais enfrentados por jovens negros no Brasil. Após um período dedicado à produção televisiva, incluindo o sucesso de 'A Garota do Momento', De entrega uma obra ambiciosa que, com perspicácia estética, busca provocar discussões essenciais sobre autoimagem e pertencimento.
Uma Jornada de Autodescoberta e Realismo Fantástico
A narrativa de “Narciso” se centra em um garoto órfão (interpretado por Arthur Ferreira) que, na véspera de seu aniversário, é inesperadamente devolvido por seus pais adotivos. Vivendo em um lar temporário sob os cuidados de Carmem (Ju Colombo), o jovem se mostra introspectivo e silencioso. A reviravolta ocorre quando seu colega Alexandre (Faiska Alves) o presenteia com uma bola de basquete supostamente mágica. A promessa é clara: acertar três cestas consecutivas materializará um gênio capaz de conceder um desejo. A partir desse ponto, o filme adota um tom de realismo fantástico, explorando os anseios mais profundos do protagonista e transformando o conceito do reflexo em uma metáfora para a busca e a construção da identidade em um contexto socialmente marginalizado.
A Estética Simbólica de Jeferson De
A genialidade de Jeferson De se manifesta desde o plano inicial de “Narciso”, que exibe a luz vermelha de um semáforo, um símbolo eloquente das barreiras e 'sinais fechados' que a vida impõe às pessoas pretas em um país marcado pelo racismo. Essa agudeza estética permeia a obra, evidenciando o talento do diretor em usar o visual para aprofundar a temática racial. A transição para o preto e branco em momentos cruciais da trama é particularmente inteligente, ressaltando não apenas a dualidade racial, mas também a natureza onírica e subconsciente da jornada do protagonista. O filme também incorpora elementos do imaginário da cultura preta, como a representação da figura de Oxóssi, enriquecendo sua camada simbólica.
Atuações e Desafios da Construção Narrativa
Apesar do talento inegável do diretor em conceber cenas de impacto, o roteiro de “Narciso” apresenta desafios em sua progressão. Um exemplo notável é a sequência sem cortes do diálogo entre Carmem e seu irmão Joaquim (Bukassa Kabengele), que se destaca pela intensidade dramática e pelas performances elogiáveis de Ju Colombo e Bukassa Kabengele. No entanto, a força narrativa dessa e de outras cenas impactantes nem sempre se traduz em uma coesão para a trama geral. Embora os atores experientes entreguem atuações consistentes, a montagem, por vezes, se mostra truncada, entrelaçando cenas de forma inorgânica e impedindo a construção de um ritmo mais fluído ou de um senso de urgência que algumas passagens poderiam exigir. As resoluções dos dramas dos personagens, por vezes, são consideradas previsíveis, e a inventividade esperada de uma obra tão calcada no sonho e na fantasia aparece em momentos pontuais.
“Narciso” no Panorama do Cinema Negro Brasileiro
“Narciso” se insere em um contexto crescente de produções brasileiras que abordam a complexidade da negritude e do racismo estrutural. O filme tem o mérito incontestável de levantar reflexões válidas e urgentes sobre a autoimagem, a identidade e a marginalização social de jovens periféricos. Ao confrontar o mito grego com a realidade brasileira, Jeferson De oferece um ponto de vista único para o debate. Embora possa não alcançar a sensibilidade tocante de obras como 'Marte Um' (2022) ou 'Kasa Branca' (2024), ou a provocação política incisiva de 'Branco Sai, Preto Fica' (2014), sua contribuição para o diálogo sobre representatividade e as lutas de identidades racializadas no cinema nacional é inegável.
“Narciso” é um filme que se dedica a explorar a alma de um jovem em busca de seu lugar no mundo, desafiando a percepção e a realidade. A obra é um convite à reflexão sobre as múltiplas faces da identidade e as barreiras que persistem. O longa estreou nos cinemas de todo o Brasil e está em cartaz em diversas cidades, incluindo Recife, onde pode ser visto no Cinema da Fundação (salas Derby e Casa Forte) e no Cinemark do Shopping RioMar.
Fonte: https://revistaogrito.com
